"Vi nas notícias que criaram um medicamento para a minha doença mas ainda não está disponível!"
Porque demoram os medicamentos a estarem disponíveis?
Vamos analisar as fases de investigação de um medicamento:
Pré fase 1 - Quando se identifica o alvo (por exemplo, num medicamento para a dor, em princípio o alvo é algum recetor ou molécula envolvida no processo de dor que queremos inibir para parar o processo de dor)
Pré fase 2 - Tenta-se perceber realmente a relação desse alvo com a doença e fazem-se testes para perceber se, com o efeito do medicamento desejado, vai haver cura/tratamento da doença (pegando no exemplo acima, tenta-se perceber se ao inibirmos determinada molécula a dor realmente vai parar)
Pré fase 3 - Identifica-se qual o melhor composto líder. Ou seja, de acordo com o mesmo exemplo, estudando a estrutura da molécula-alvo que causa dor conseguimos definir uma série de moléculas-fármaco que se conseguem ligar à molécula-alvo, mas apenas uma poderá gerar o medicamento final. Podem ser estudadas 20 moléculas-fármaco e, no final, descobre-se qual a melhor
Pré fase 4 - Quando se identifica qual a melhor molécula-fármaco de todas as selecionadas na pré fase 3. Isto inclui testes in vitro e testes em animais, que seguem todas as formas de ética (não envolver dor física nem psicológica no animal é um dos exemplos). Aqui, pode ser necessário fazer umas ligeiras alterações na molécula final para torná-la ainda melhor.
Assim que se obtém então a molécula-fármaco final, passamos aos testes com voluntários humanos.
Fase 1 - É testada a segurança e tolerância. Com cerca de 100 voluntários, estes têm de ser saudáveis e submetidos ao fármaco. Depois, percebe-se se o medicamento é ou não seguro. Se for, passamos à fase seguinte. Tem uma taxa de sucesso de 7%
Fase 2 - É testada a eficácia. Aqui são feitos testes em cerca de 100 voluntários doentes para avaliar se o medicamento é eficaz no tratamento da doença. Tem uma taxa de sucesso inferior a 10%, o que explica os poucos medicamentos lançados no mercado anualmente
Fase 3 - Caso o medicamento seja eficaz, inicia-se a comparação. Aqui testa-se o medicamento novo relativamente ao medicamento padrão já existente no mercado para a mesma doença. Esta fase pode durar anos e é feita com mais de 1000 doentes.
Fase 4 - Esta fase é feita após a introdução no mercado (ou seja, após estar à venda). O medicamento, para estar nesta fase, passou testes de segurança e eficácia. Aqui avaliam-se mais efeitos secundários, outras situações de prática clínica e envolve milhares ou milhões de pessoas. Por envolver muitas mais pessoas, é possível que se descubram mais efeitos secundários que inicialmente. É nesta fase que muitos medicamentos estão neste momento e é por isso que vemos notícias de medicamentos a serem retirados do mercado por se descobrir um novo efeito secundário. Assim, é extremamente importante as pessoas informarem o INFARMED dos efeitos que sentem quando tomam determinado medicamento.
É de referir que, em 99% dos casos, os testes em humanos são duplamente cegos e cruzados. Ou seja, alguns pacientes tomam placebo e outros tomam o medicamento (sem saberem em qual dos grupos estão) e depois trocam. Os efeitos apenas podem ser sentidos no grupo que toma o medicamento, caso contrário apenas estamos perante o efeito placebo e o medicamento não é eficaz.
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