Hoje há dois textos porque preciso muito de expôr a verdade que ouço no dia-a-dia.
Como farmacêutica, ouço muitas vezes a frase "as indústrias da Big Pharma só querem ganhar dinheiro. Já têm a cura do cancro e matam quem a descobre, assim ganham muito dinheiro com as quimioterapias".
Posso-vos garantir que a cura do cancro seria muito mais proveitoso em termos monetários do que a quimioterapia. As pessoas sobreviverem seria muito mais proveitoso do que as pessoas morrerem. Se a Big Pharma inventasse a cura, vendia por dinheiro que nunca mais acabava. Ou não vendia. Quem inventou a insulina para ser usada por diabéticos vendeu a patente por 1 dólar porque não queria fazer dinheiro com o bem estar dos outros. A questão aqui é que se o problema fosse dinheiro, fazia-se muito mais com a cura do que com a doença. Acreditem no que vos digo.
"Ah e tal isso é muito bonito mas não era a Big Pharma que ganhava o dinheiro, era quem inventou a cura, essas pessoas é que ganhavam". Essas pessoas trabalham para a Big Pharma. É a Big Pharma que faz investigação. É a Big Pharma que põe do seu dinheiro para encontrar curas, como já fizeram com milhares de doenças até então. Porque é que não fazem isso com a cura do cancro também?
A resposta é muito simples:
Porque "o cancro" não é só uma doença.
O cancro são milhares de doenças. Um cancro é sempre diferente. Um cancro do estômago não é igual a um cancro da mama. Mesmo dentro de cancro no estômago, existem diversas formas de cancro do estômago. A título de exemplo, existe o adenocarcinoma, o linfoma do estômago, o sarcoma do estômago. As próprias razões pelas quais a pessoa desenvolve cancro de um determinado órgão são diferentes. Pode a célula ter perdido a sua capacidade de apoptose por uma enzima ou por outra enzima (suicídio da célula, acontece quando a célula percebe que é deficiente e vai causar mau funcionamento, então suicida-se para evitar a má propagação. Caso não haja apoptose, a célula deficiente vai começar a mutiplicar-se com essa deficiência e causar erros no organismo). Pode ter sofrido uma alteração no material genético por troca, eliminação, adição...
Eu sei, eu sei, muita linguagem científica.
O que pretendo dizer é que o cancro varia conforme o órgão que atinge, a zona do órgão que atinge, o que aconteceu à célula mãe para levar a que o cancro se iniciasse e, mesmo tendo tudo isto em conta, depende do próprio indivíduo. Isto dá uma combinação de mais de 200 tipos de cancro. Como é de esperar, não é possível encontrar uma cura que envolva todos estes 200+ tipos. As curas vão sendo descobertas e, um dia, talvez seja possível dizer que "a cura" chegou. Quando houver 200+ curas.
Por enquanto, apenas é possível pegar nos fármacos existentes e encontrar a combinação ideal para tratar aquele tipo específico de cancro, tendo sempre em conta que cada pessoa responde de forma diferente aos tratamentos.
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