Hoje trago-vos coisas engraçadas ouvidas em farmácia:
Utente (U): Menino, quero o meu medicamento da tensão.
Farmacêutico meu colega (F): Sabe-me dizer qual é?
U: Sei lá, traga-me todas que eu depois vejo qual é.
F: Sabe pelo menos a cor da caixa? É que existem umas 20 substâncias ativas, cada uma com umas 3 ou 4 doses diferentes, com uns 20 laboratórios diferentes.
U: Olhe traga todas em várias viagens, o menino tem ar de quem precisa de fazer exercício.
U: Estou com febre interna!
U: Quero um espositório de paracetamol!
U: A pomada de mentol para ajudar a respirar pode ser aplicada na micose da unha?
U: Quero um frasco de espermatozóides.
U: Olhe estou com gases no nariz.
U: Quero um panado da gripe (panadol gripus).
U: Quero ben-u-ron dos grandes.
F: Este?
U: Não não.
F: Então é o de 500 mg?
U: Não, é o grande!
F: Mas este é o de 1000 mg.
U: Não não, este diz 1g. Eu quero o de 1000 mg, não quero nada de genéricos. Quero o de marca de 1g!!!
F: Mas é este. É o de marca e 1g é o mesmo que 1000mg.
U: Ouça, eu não quero um que faça o mesmo! Quero que seja exatamente o que lhe pedi! A menina tem mesmo o curso de farmacêutica ou é só daquelas com um mini-curso de técnica?? Chame o seu chefe.
(Já agora, sou mesmo farmacêutica, mas os técnicos de diagnóstico e terapêutica são formados com cursos a sério, não mini-cursos, e são perfeitamente aptos àquele trabalho)
U: A médica passou-me a caixa grande, mas esses fazem-me mal, quero a pequena.
F: Oh sr. X, mas o medicamento é o mesmo, até o laboratório. É exatamente igual, só o número de comprimidos é que varia.
U: A médica enganou-se mas não quero ir lá chateá-la com isto. Dê-me a pequena.
U: Vocês pessoas da saúde só querem ganhar dinheiro. Não tomo isso. Dê-me o homeopático disto. (Como se o dinheiro do homeopático não viesse para nós na mesma.....)
Uns dias depois aparece lá na farmácia ainda mais doente com montes de receitas para medicamentos "a sério".
U: Estava com a tensão muito alta. O médico mandou-me cozinhar sem sal. Agora só ponho sal no prato depois da comida estar cozinhada. Estou muito melhor.
U: Diga-me se estou grávida!
F: Quer fazer um teste, é isso?
U: Não, eu é que tomei um drenante e tenho medo que corte a pílula e como ontem tive sintomas de gravidez quero que a menina me diga se estou grávida, mas não quero fazer o teste porque não deve acusar ainda.
U: Dê-me este antibiótico.
F: Mas tem receita?
U: Não, nem preciso. Tomo sempre disto.
F: (Explico o perigo de se tomar antibióticos sem necessidade, da incrível velocidade do aumento da resistência a antibióticos, explico que se toma sempre aquele e mesmo assim não faz efeito talvez seja indicador de que realmente não é o antibiótico correto)
U: Mas dê-me na mesma, é apenas a minha saúde que está em causa e eu se quiser ponho-a em risco.
F: (Explico que é a saúde da comunidade, porque a resistência a antibióticos é uma coisa que pode levar a infeções noutras pessoas etc etc)
F2: (Um colega vem ter comigo para me "apoiar" e diz que, para além da saúde pública estar em causa, também está em causa a nossa cédula profissional)
U: Eu quero lá saber disso, é para o lado que durmo melhor.
U: Tinha um antibiótico velho em casa e tomei-o juntamente com o anti-inflamatório. Agora estou com diarreia e sei que era do anti-inflamatório. Portanto dê-me outro antibiótico novo que aquele já acabou.
F: (mais uma vez explico o perigo da toma de antibióticos)
U: Chame mas é um doutor a sério, não quero falar consigo.
F: Vai levar tudo o que está na receita?
U: Claro, não acha? (Vou buscar as coisas) Não quero esse. Não tem outro?
F: Existe também em pó. É a mesma coisa só que a senhora é que tem de preparar.
U: Pó não quero, devia já vir feito.
F: Pois, este primeiro que lhe trouxe já vem feito.
U: Pois, vai esse então.
(sai da farmácia e volta logo a seguir)
U: Veja o que diz aqui na receita!!! 9 euros! Eu paguei 13! Vou dar-lhe o troco e vai-me devolver o dinheiro e resolver a porcaria que fez!
F: Eu compreendo mas este preço que vem na receita está desatualizado, de alguns meses em alguns meses eles atualizam os preços dos medicamentos e como esta receita já é antiga está com o preço antigo.
U: Nem é pelo preço!!! Eu posso pagar isto e muito mais!!! É pela mania de vocês quererem enganar as pessoas! Odeio odeio odeio farmácias! Vou a outro lado!!
(anulo a venda e devolvo o dinheiro, a senhora sai da farmácia e torna a entrar)
U: Olhe ninguém há de morrer. Venda-me outra vez que eu levo. Mas que seja a última vez que me enganam!
U: Dê-me um xarope para a tosse.
F: Muito bem. É tosse seca ou com expectoração?
U: Olhe é uma expectoração muito seca.
U: A menina é neta da Dona X?
F: Sou sim.
U: Às vezes vejo-a no café Y com uma outra menina, deve ser outra neta.
F: Olhe, a minha avó não vai ao café Y, ela mal sai de casa, e não tem mais netas, deve estar a confundir.
U: Não não, era a sua avó! Com a mesma bengala e tudo!
F: A minha avó não usa bengala.
U: Ai então não usa, eu vi!
U: Eu pedi à médica para passar o de 20 e ela passou o de 40 porque não encontrou no computador o de 20. Como faço?
F: Nesse caso, apesar de não ser o ideal, o mais adequado é tomar metade, pois não existe de 20mg.
U: Não consegue mandar vir?
F: Não é que não temos na farmácia, é que não existe.
U: E se ligar para os fornecedores?
F: Não existe, não fazem este medicamento em 20 mg.
U: E se ligar para o laboratório? Eles não terão lá?
F: Eles não têm porque não fazem.
U: Ahhh já percebi. E se mandar fazer para mim?
F: O seu colesterol está muito alto. Tem tomado a medicação direitinha?
U: Olhe, não. A médica mandou-me tomar meio por dia mas como não gosto de partir, tomo um inteiro de dois em dois dias.
U: Vinha comprar o calmante X.
F: Mas tem receita? Isto é um medicamento muito forte, causa muita habituação e é perigoso estar a tomar sem indicação do médico. Não tenho nenhuma informação que o senhor necessite de tomar isto.
U: 98% das farmácias vendem-me sempre que peço e vens tu com a mania e não me vendes.
U: Traga-me tudo sem ser genérico.
(no final da venda)
U: Tão caro??
F: Como disse que não queria genérico, os de marca são mais caros.
U: Ouça lá, eu disse que não queria genérico, não disse que tinha de ser de marca.
U: Vinha buscar aquilo que pedi ontem pelo telefone para vocês encomendarem.
F: Sim senhora.
(Lá vou às encomendas procurar pelo nome da senhora, ando às voltas. Não encontro. Ouço a senhora a resmungar lá fora com os meus colegas e eles vêm ajudar-me a procurar. Damos a volta à farmácia e nada. Vamos ver as folhas das encomendas, tentar perceber se o medicamento veio mesmo e o arrumamos no sítio errado. Percebemos que não veio na encomenda.)
F: Peço imensa desculpa, não sei o que aconteceu. Vou ligar para o fornecedor.
U: Que pouca vergonha ouviu??!! Que falta de profissionalismo! Garantiram-me que estava aqui hoje de tarde! Já é de noite!! Ou não veio ou veio e venderam a outra pessoa! Vocês só querem é fazer dinheiro à custa das pessoas!
F: Liguei para os fornecedores e eles dizem que não foi encomendado nada daqui, houve algum mal entendido. Lamento imenso. Posso encomendar agora e mal chegue levamos-lhe a casa sem qualquer custo?
U: Ai ainda por cima disseram que encomendaram e não encomendaram nada! Cambada de mentirosos vocês! Nunca mais venho a esta farmácia!!
F: Sabe-me dizer o nome do colega que a atendeu? Para tentar perceber se ele se esqueceu de pedir, se o fornecedor entendeu mal....?
U: Sei lá nem tenho de saber, vocês é que trabalham mal e a culpa é minha?? Falam tanto que são uma boa farmácia e têm tudo, nunca mais venho cá à farmácia X!!!!
F: Mas nós somos a farmácia Y. A farmácia X é do outro lado da cidade.
U: Ah então foi com eles que eu encomendei.
(Vira as costas e sai sem dizer nada)
(Numa noite de serviço, às 3 da manhã, tocam à campainha)
U: Olhe era só para fazer chichi.
U: Quero um código de barras para as dores de colar nos músculos.
U: Quero um nestum para a garganta.
U: Tem algum creme em comprimido?
U: Preciso de um laxante, estou obstinada!
Algumas coisas são engraçadas. Outras nem tanto. Que as pessoas não saibam as coisas é perfeitamente normal. Não é a área delas. Por isso esta publicação serve apenas para efeitos de humor e nunca para menosprezar ninguém.
Mas espera-se que saibam ouvir, que saibam pedir, que sejam humildes (esperando que os meus colegas também o saibam ser) e, acima de tudo, que percebam que uma farmácia não é uma loja e que se não podemos vender algo não é por má vontade, é porque temos leis diferentes das lojas e está em risco a saúde de toda a população.
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